domingo, 11 de maio de 2014

BLOCOS AFROS: VISIBILIDADE? - Do Mito à Razão



Em tempos onde o Carnaval de Salvador se torna cada vez mais comercial, com importação de culturas que não compreendem o povo que constrói esta manifestação, veio o projeto “AFRÓDROMO”, idealizado pela Liga dos Blocos Afro, com a intenção de “recuperar o caráter cultural do Carnaval de Salvador através da valorização da cultura ‘afrodescendente’”. A definição foi oferecida pelo próprio grupo - composto pelos Filhos de Gandhy, Carlinhos Brown, Ilê Aiyê, Cortejo Afro, Muzenza, Malê Debalê e Timbalada -, e deixa claro o objetivo da criação deste projeto.

No início de 2013 o “AFRÓDROMO” foi apresentado pela primeira vez à Prefeitura da nossa cidade. Dentre os muitos dos seus objetivos, um deles era funcionar como outro circuito de carnaval, previsto para acontecer na Av. França, no bairro do Comércio. Planos para a continuação do movimento Afródromo ao longo do ano, de acordo com o calendário de eventos culturais da cidade também foram idealizados e devidamente apresentados. Mas a primeira conquista ficou por conta da apresentação dos blocos ainda no Carnaval de 2013, com destaque no circuito Osmar (Campo Grande). 

O cortejo, puxado por Carlinhos Brown, foi acompanhado pelas alas de canto dos blocos afros e afoxés, no domingo de Carnaval, às 11h. O grande objetivo aqui era o destaque maior na mídia. Nos últimos anos, os blocos afros vinham desfilando no fim do circuito, início da madrugada, o que impedia a cobertura jornalística – no rádio e na TV – dos seus desfiles, desvalorizando uma parte de suma importância na construção do Carnaval de Salvador. Com o projeto AFRÓDROMO, no entanto, os holofotes devem voltar aos blocos afros, ainda que, a princípio, não tão incidentes.

Em 2014 o tema ganhou mais visibilidade, quando os blocos afros foram destaque na folia baiana. O AFRÓDROMO veio em forma de desfile no domingo, segunda e terça-feira de carnaval, contando como mais uma conquista e apagando uma parte do ressentimento pela pouca participação do público e menor visibilidade na mídia, quando ainda desfilavam na avenida apenas nos horários da madrugada.

Mesmo com intenções positivas, o projeto foi duramente criticado. Personalidades e entidades de influência na festa acreditam que a criação de outro circuito de desfiles no Carnaval de Salvador não vai trazer mais visibilidade e sim, segregar os blocos envolvidos.  O presidente do grupo Olodum, João Jorge, foi um dos que se opôs veementemente ao projeto, argumentando que em nada ajudaria um novo circuito na inserção da população negra no nosso Carnaval. Para ele, os blocos deveriam estar buscando mais espaço em agremiações já existentes, ao invés de buscarem a segregação dos circuitos.

De qualquer jeito, mesmo com a resistência na implantação do maior objetivo deste projeto, fato é que desde 2013 os blocos afros vêm ganhando mais destaque na programação carnavalesca, podendo-se dizer que, a partir dessa manifestação, concretizada na forma do projeto apresentado à prefeitura de Salvador, a intenção da Liga dos Blocos Afros começa, ainda que de longe, a ser alcançada.



Encontramos, neste caso, uma grande representação de conceitos estudados ao longo do semestre, com a demonstração de que os homens não se definem por aquilo que lhes é apresentado de forma engessada, mas estão em constante busca de novos valores, adaptando-se às novas realidades e condições mais favoráveis. Podemos ainda, aludir à passagem do mito à razão, quando o Carnaval de Salvador busca sair de uma forma já limitada, que se repete há muitos anos, em busca de uma renovação cultural, utilizando-se do seu conhecimento crítico da realidade na elaboração de novos projetos e entendendo o agora para buscar as mudanças necessárias.
 

Carolina Sepúlveda Fonseca Trevisan Passos




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