Em tempos onde o Carnaval de
Salvador se torna cada vez mais comercial, com importação de culturas que não
compreendem o povo que constrói esta manifestação, veio o projeto “AFRÓDROMO”,
idealizado pela Liga dos Blocos Afro, com a intenção de “recuperar o caráter
cultural do Carnaval de Salvador através da valorização da cultura
‘afrodescendente’”. A definição foi oferecida pelo próprio grupo - composto
pelos Filhos de Gandhy, Carlinhos Brown, Ilê Aiyê, Cortejo Afro, Muzenza, Malê
Debalê e Timbalada -, e deixa claro o objetivo da criação deste projeto.
No início de 2013 o “AFRÓDROMO”
foi apresentado pela primeira vez à Prefeitura da nossa cidade. Dentre os
muitos dos seus objetivos, um deles era funcionar como outro circuito de
carnaval, previsto para acontecer na Av. França, no bairro do Comércio. Planos
para a continuação do movimento Afródromo ao longo do ano, de acordo com o
calendário de eventos culturais da cidade também foram idealizados e
devidamente apresentados. Mas a primeira conquista ficou por conta da
apresentação dos blocos ainda no Carnaval de 2013, com destaque no circuito
Osmar (Campo Grande).
O cortejo, puxado por Carlinhos
Brown, foi acompanhado pelas alas de canto dos blocos afros e afoxés, no
domingo de Carnaval, às 11h. O grande objetivo aqui era o destaque maior na
mídia. Nos últimos anos, os blocos afros vinham desfilando no fim do circuito,
início da madrugada, o que impedia a cobertura jornalística – no rádio e na TV
– dos seus desfiles, desvalorizando uma parte de suma importância na construção
do Carnaval de Salvador. Com o projeto AFRÓDROMO, no entanto, os holofotes
devem voltar aos blocos afros, ainda que, a princípio, não tão incidentes.
Em 2014 o tema ganhou mais
visibilidade, quando os blocos afros foram destaque na folia baiana. O
AFRÓDROMO veio em forma de desfile no domingo, segunda e terça-feira de
carnaval, contando como mais uma conquista e apagando uma parte do
ressentimento pela pouca participação do público e menor visibilidade na mídia,
quando ainda desfilavam na avenida apenas nos horários da madrugada.
Mesmo com intenções positivas, o
projeto foi duramente criticado. Personalidades e entidades de influência na
festa acreditam que a criação de outro circuito de desfiles no Carnaval de
Salvador não vai trazer mais visibilidade e sim, segregar os blocos
envolvidos. O presidente do grupo
Olodum, João Jorge, foi um dos que se opôs veementemente ao projeto,
argumentando que em nada ajudaria um novo circuito na inserção da população
negra no nosso Carnaval. Para ele, os blocos deveriam estar buscando mais
espaço em agremiações já existentes, ao invés de buscarem a segregação dos
circuitos.
De qualquer jeito, mesmo com a
resistência na implantação do maior objetivo deste projeto, fato é que desde
2013 os blocos afros vêm ganhando mais destaque na programação carnavalesca,
podendo-se dizer que, a partir dessa manifestação, concretizada na forma do
projeto apresentado à prefeitura de Salvador, a intenção da Liga dos Blocos
Afros começa, ainda que de longe, a ser alcançada.
Encontramos, neste caso, uma
grande representação de conceitos estudados ao longo do semestre, com a
demonstração de que os homens não se definem por aquilo que lhes é apresentado
de forma engessada, mas estão em constante busca de novos valores, adaptando-se
às novas realidades e condições mais favoráveis. Podemos ainda, aludir à
passagem do mito à razão, quando o Carnaval de Salvador busca sair de uma forma
já limitada, que se repete há muitos anos, em busca de uma renovação cultural,
utilizando-se do seu conhecimento crítico da realidade na elaboração de novos
projetos e entendendo o agora para buscar as mudanças necessárias.

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